6. GERAL 22.5.13

1. GENTE
2. ESPECIAL  O VALOR MAIOR DE ANGELINA
3. VIDA DIGITAL  BANDA ESTREITA, LENTA E CARA
4. GUSTAVO IOSCHPE  EDUCAO E TECNOLOGIA: O SARRAFO SUBIU
5. COMPORTAMENTO  ALTO PUNK, BAIXO PUNK
6. ESTILO  FOGO NAS ROUPAS
7. HISTRIA  OS OSSOS DO SOCIALISMO
8. CULTURA  PERFUME DE MODERNO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Alvaro Leme, Thas Botello e marlia Leoni

DE ENCONTRO EM ENCONTRO
Desde que o humorista Chico Anysio morreu, em maro de 2012, MALGA DI PAULA, 43, precipitou-se numa viuvez cheia de saudade. No ms passado, ainda enlutada, tatuou o nome dele no pulso. Dias depois, sinais de tempos mais felizes pipocaram em seu Facebook. FELIPE BATISTA, 29, um amigo de amigos seus, escreveu para ela: "A sua beleza  impressionante". Os dois comearam a conversar, uma coisa levou a outra e, agora, esto morando juntos. "Ele me ajudou a superar o luto e entende que meu amor pelo Chico nunca vai morrer", diz Malga, dona de uma agncia de turismo que  aberta a todo tipo de viagem. "Tive um encontro espiritual com So Jorge em uma caverna da Capadcia", descreve.

COM MUITO JOGO PELA FRENTE
Coberto de tatuagens e de glrias, DAVID BECKHAM, 38, protagonista da tpica histria de menino pobre que vira dolo do futebol, mostrou que classe no comportamento no depende da origem social ao anunciar a aposentadoria. Passou um pouquinho da hora, mas, ao sair depois de ganhar mais um campeonato para seu ltimo reduto, o Paris Saint-Germain, Beckham arrematou com elegncia uma carreira coberta de ttulos em times como Milan, Real Madrid e Manchester United. No foi um grande gnio do futebol, mas o poder da beleza, a associao conjugal com uma mulher famosa por direito prprio, Victoria, e a capacidade de se manter comparativamente longe de encrencas tornaram-no o mais bem-sucedido jogador da era contempornea, com fortuna calculada em 500 milhes de reais. Uma boa parte proveniente de contratos com gigantes da indstria da moda, que perduraro enquanto tiver um abdmen  e todo o resto  de derrubar a arquibancada feminina.  luz do exemplo de Beckham, ALEX SONG e GERARD PIQU ganham o que quando comemoram a vitria do Barcelona no campeonato espanhol enchendo a cara e saindo no murro? 

A MULTIPLICAO DOS LELEKE'S
Militantes de organizaes esquerdistas do passado devem se recordar da lei nmero 1 do movimento: todo grupo obrigatoriamente gerar uma dissidncia. O que os LELEK'S tm a ver com isso? Desde que o onomatopaico refro "Ah, leleklek..." bombou e atingiu 35 milhes de acessos no YouTube, com Neymar e Anderson Silva aderindo, a maldio do racha recaiu sobre eles. Dos cinco integrantes originais, trs formaram um segundo grupo de Leleks, que  clone do primeiro em nome, msica e estilo. No momento, o Leleke do B est proibido pela Justia de fazer shows. RENAN MIGUEL, da formao inicial, conta vantagem: "Ns j temos um novo hit. ', novinha, no d mole, eu te pego de jeitim. Taradim Taradim Taradim'".

MANGABA MADURA
Antes de interpretar a Mulher Mangaba na novela Sangue Bom, ELLEN ROCCHE, 33, nunca havia visto a fruta, abundante no Nordeste brasileiro. "Fiz uma pesquisa no Google e vi que ela  uma fruta sria! Tem at cooperativa de gente que trabalha com ela", entusiasma-se. Como preparao para o satrico papel, Ellen fez treino de funk e de fonoaudiologia "para ficar com voz de barraqueira". Revelada como assistente de palco de Silvio Santos e lembrada pela cintura fina abrindo-se em frutuosos quadris em desfiles de Carnaval, Ellen resolveu estudar teatro  "Porque beleza acaba"  e agora faz seu trabalho mais importante na TV. "Quando atuo com Giulia Gam, d um frio na barriga. Fico feliz de ver aonde consegui chegar. 


2. ESPECIAL  O VALOR MAIOR DE ANGELINA
A deciso da atriz de revelar que se submeteu a uma dupla mastectomia preventiva  heroica e reflete tambm os avanos da medicina na preveno, deteco e tratamento do cncer de mama.
NATALIA CUMINALE

Minha me lutou contra o cncer por quase uma dcada e morreu aos 56 anos. Conseguiu sobreviver por tempo suficiente para conhecer seus primeiros netos e t-los nos braos. Mas meus outros filhos no tero a oportunidade de conhec-la e ver quanto ela era amorosa e carinhosa." Assim comea o emocionante depoimento da atriz Angelina Jolie publicado na semana passada pelo jornal americano The New York Times, intitulado "Minha escolha mdica". Aos 37 anos, ela revelou ter se submetido a uma dupla mastectomia preventiva para minimizar o risco de desenvolver cncer de mama. Sua me, Marcheline Bertrand, morreu em 2007, depois de uma dcada de luta contra tumores malignos nas mamas e nos ovrios. A av materna de Angelina tambm foi vtima do mesmo mal. Lois June morreu aos 45 anos, em 1973. "Muitas vezes conversamos sobre a 'mame da mame', e me vejo tentando explicar a doena que a tirou de ns", l-se no artigo assinado pela atriz. "As crianas perguntam se o mesmo poderia acontecer comigo. Sempre respondi que no deviam se preocupar, mas a verdade  que tenho um gene 'defeituoso' , o BRCA 1 , e isso eleva muito o meu risco de ter cncer de mama e de ovrio." 
     A angstia e o medo embutidos na escolha de Angelina so difceis de avaliar por quem nunca esteve na linha de tiro dessa condenao gentica  morte. Decidir extirpar as duas mamas  uma maneira radical mas compreensvel de afastar a sentena fatal. O herosmo de Angelina est em expor publicamente sua deciso. Mesmo com os processos atuais de reconstruo da mama tendo atingido a quase perfeio cosmtica, a escolha natural para uma atriz de beleza primal seria esconder a interveno. Agora que todos sabem da cirurgia, ser que os olhos dos fs vo procurar imperfeies quando forem exibidas novas imagens de seu corpo milimtrica e generosamente esquadrinhado pelas cmeras de alta resoluo? Ser que os produtores vo continuar oferecendo-lhe contratos milionrios para estrelar filmes como a mulher fatal? Bobagem pensar que essas indagaes no passaram pela cabea de Angelina. Mas ela optou pelo que existe de real valor neste mundo, a vida e a convivncia familiar com o companheiro, o ator Brad Pitt, e os seis filhos. 
     A escolha de Angelina Jolie serve tambm como um alerta muitas vezes mais poderoso do que aqueles das campanhas tradicionais de preveno do cncer de mama. A atitude da atriz  uma lembrana de que as mulheres precisam se antecipar  doena  e, em tomando a iniciativa, vo encontrar uma medicina preventiva, de diagnstico e de tratamento que evoluiu exponencialmente nos ltimos anos. Entre 5% e 10% das mulheres diagnosticadas com cncer de mama ouviro de seus mdicos terem herdado uma sequncia trgica de genes como a que levou Angelina Jolie a optar pela mastectomia dupla radical. A maioria das mulheres que vierem a ser diagnosticadas com esse tipo de cncer tem grande probabilidade de ter sido atingidas por um mal preocupante mas curvel. A cada ano, 1,5 milho de mulheres em todo o mundo recebem o diagnstico dessa doena, entre elas 53.000 brasileiras. O cncer de mama ainda mata 458.000 mulheres por ano no mundo  13.000 delas no Brasil. Mas o nmero de fatalidades cai ano a ano graas aos avanos mdicos. 
     Exames de sangue capazes de identificar mutaes genticas que predispem ao cncer de mama custam em torno de 7000 reais. Seja qual for o resultado, eles permitem  mulher e ao seu mdico decidirem com mais clareza. "A vida vem com muitos desafios. Aqueles que podemos encarar e sobre os quais podemos ter controle no devem nos assustar", escreveu Angelina. Para as pacientes geneticamente propensas a ter cncer de mama, alternativa  mastectomia dupla  o incmodo dirio da quimioterapia preventiva ou dos exames frequentes. "Muitas mulheres que acompanharam o sofrimento de mes ou irms na luta contra a doena optam pela cirurgia preventiva", diz Maria Isabel Achatz, diretora do departamento de oncogentica do Hospital A.C. Camargo, em So Paulo. 
     Nos Estados Unidos, cerca de 50% das pacientes portadoras dos genes malignos optam pela abordagem cirrgica radical preventiva. No Brasil, quatro em cada cinco dessas pacientes preferem a vigilncia constante, o stress dos testes, e fogem do bisturi. "Indico a cirurgia profiltica a toda paciente que chegue ao meu consultrio com o teste positivo.  a medida mais eficaz", diz o mastologista Antonio Luiz Frasson, do Instituto de Oncologia do Hospital Albert Einstein, em So Paulo, e professor da Faculdade de Medicina da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul. A operao reduz em 95% a probabilidade de manifestao da doena. Por que no 100%? Porque o cirurgio tem de manter intacta parte do tecido mamrio de modo a garantir a irrigao sangunea dos mamilos, das arolas e da pele. 
     Mutaes nos mesmos genes respondem por 54% das incidncias de tumores malignos nos ovrios. "Comecei pelos seios porque o risco de cncer de mama  mais elevado do que o risco de cncer de ovrio, e a cirurgia  mais complexa", escreveu Angelina. A retirada dos ovrios (ooforectomia, no jargo mdico) leva a uma queda drstica na produo dos hormnios femininos, causando a menopausa e todos os sintomas relacionados a ela. A partir dos 40 anos, no entanto, a indicao da cirurgia  incontestvel para as mulheres portadoras da mutao gentica. O procedimento reduz em 90% o risco de cncer de ovrio, tumor de alta agressividade e difcil deteco. 
     A operao de mastectomia de Angelina Jolie foi feita em trs etapas (veja o quadro na pgina 93). A primeira aconteceu no dia 2 de fevereiro, e a ltima, em 27 de abril, com a implantao das prteses de silicone. A segunda etapa foi, sem dvida, a mais complicada e agressiva. A retirada das glndulas mamarias durou oito horas. A atriz saiu da sala de operao do hospital Pink Lotus Breast Center, em Beverly Hills, Los Angeles, com seis drenos, trs de cada lado, presos a um cinto elstico. Quatro dias depois da operao, Kristi Funk, a mdica de Angelina, a encontrou animada, trabalhando em um novo projeto como diretora  com as paredes da sala cobertas por storyboards. 
     O cncer foi descrito pela primeira vez no sculo V .a.C. pelo grego Hipcrates. A imagem de um tumor cercado por vasos sanguneos lembrava-lhe a de um caranguejo enterrado na areia com as patas abertas ao seu redor. Da o nome "cncer", do grego karkinos, caranguejo. Apesar de todos os avanos, a doena continua a desafiar a medicina. "O cncer no  uma doena, mas muitas. Podemos chamar todas da mesma maneira porque compartilham uma caracterstica fundamental: o crescimento anormal de clulas", escreve o mdico Siddhartha Mukherjee, no excelente O Imperador de Todos os Males  Uma Biografia do Cncer. Tumores idnticos podem responder de formas diferentes a um mesmo procedimento. Alm disso, um nico cncer pode ser dividido em vrios subtipos. Os de mama j somam dez, conforme um trabalho publicado em 2012 na revista cientfica Nature. "Descobertas desse tipo abrem oportunidade para individualizar ainda mais o tratamento", diz Fernando Maluf, oncologista do Hospital So Jos, em So Paulo. Segundo no ranking mundial das neoplasias mais incidentes, o cncer de mama , sem dvida, o mais estudado  e "est entre os mais curveis", lembra Paulo Hoff, oncologista do Hospital Srio-Libans, em So Paulo. Do total de pesquisas em cncer, cerca de 40% delas so sobre os tumores malignos de mama. Esto em estudo cerca de 200 novos medicamentos para o combate da doena. O inimigo no  mais to implacvel, como se v nos depoimentos das mulheres que ilustram esta reportagem. As cirurgias esto menos agressivas, os medicamentos, mais precisos, e a radioterapia est mais segura (veja quadros nas pginas 98 e 100). As campanhas para deteco precoce funcionam bem. Hoje em dia 80% dos tumores so diagnosticados em estgio inicial, quando as chances de cura chegam a 99% (veja quadros nas pginas 95 e 96). At para as pacientes mais graves a medicina registra pequenas grandes vitrias. De 1980 para c, as taxas de sobrevida das doentes em metstase saltou de 6% para 18% nos centros de referncia no tratamento do cncer. Em estgio de metstase, ainda  difcil garantir a cura. Os mdicos preferem usar o termo controle da doena. Em 30% das doentes, o tumor pode at desaparecer, mas elas so consideradas pacientes crnicas de cncer. 
     Desde a primeira extirpao mamaria, em 1882, realizada pelo cirurgio americano William Halsted, "um cirurgio perfeccionista que desbastava o cncer com operaes cada vez maiores e mais desfiguradoras, na esperana de que, quanto mais cortasse, maior seria a possibilidade de cura", conforme descrio no livro O Imperador de Todos os Males, at hoje, todos os tumores de mama passam por cirurgia. As mastectomias radicais foram tratamento-padro at a dcada de 80, quando o cirurgio italiano Umberto Veronesi desenvolveu a quadrantectomia  a extirpao apenas do quadrante da mama em que se encontra o tumor (veja a entrevista com o mdico na pg. 97). Em meados dos anos 90, descobriu-se que, se o primeiro gnglio da axila, o linfonodo sentinela, no estiver contaminado por clulas doentes,  possvel preservar todos os outros gnglios. "Com isso, diminuem muito os riscos de inchao, infeces locais e perda de sensibilidade dos braos", diz a mdica Maria do Socorro Maciel, diretora do ncleo de mastologia do Hospital A.C. Camargo. 
     A tendncia, apostam os mdicos mais otimistas,  que em um futuro no muito distante alguns casos de cncer de mama at dispensem a necessidade do bisturi. "Um estudo publicado na revista cientfica The New England Journal of Medicine, em novembro de 2012, indica que cerca de 30% das pacientes submetidas a cirurgia por causa de tumores muito pequenos, inferiores a 5 milmetros, talvez nunca viessem a desenvolver clinicamente o cncer de mama", diz o mastologista Antonio Luiz Frasson. Por que, ento, foram operadas? "Porque ainda no dispomos de tecnologia para determinar os tumores que vo evoluir", completa o mdico. Enquanto isso no acontece,  possvel domar o cncer de mama com as armas oferecidas atualmente pela medicina. Como fez Angelina. Escreveu ela: " animador que eles (os filhos) no vejam coisa alguma que lhes cause desconforto. Vem as pequenas cicatrizes que ficaram, e s isso. Tudo o mais  a mame, a mesma  qual eles esto acostumados. Eles sabem que farei qualquer coisa para ficar com eles o maior tempo possvel".

PREVENO RADICAL
1 em cada 2 americanas com mutao nos genes BRCA opta pela dupla mastectomia preventiva.
1 em cada 5 brasileiras na mesma situao opta pelo procedimento.
A cirurgia preventiva reduz at 95% o risco de desenvolvimento do cncer de mama.
Por meio da quimiopreveno, com o remdio tamoxifreno, essa taxa seria no mximo de 50%.
A realizao de exames peridicos como mamografia e ressonncia magntica a cada seis meses no reduz o risco  apenas possibilita o rastreamento do cncer de mama em estgio inicial.

COMO FOI A CIRURGIA DE ANGELINA
2 de fevereiro
A atriz foi submetida a um procedimento conhecido como autonomizao do mamilo. Por meio de uma pequena inciso de 0,5 centmetro na borda inferior da arola, o mamilo  desprendido da glndula mamaria, mas permanece ligado  pele, por onde passa a receber toda a vascularizao. O tecido atrs do mamilo  encaminhado para bipsia. A ideia  preservar os mamilos para a reconstruo mamaria.
16 de fevereiro
Liderada pela mdica Kristi Funk, a segunda etapa da cirurgia foi a mais longa. Durante as oito horas da mastectomia, foram extirpadas as glndulas mamarias, preservando a pele, as arolas e os mamilos. Depois da mastectomia, o cirurgio plstico Jay Orringer deu incio ao processo de reconstruo mamaria com a implantao de expansores  espcie de bolsas que contm um sistema de vlvulas que permite que elas sejam preenchidas, em sesses depois da cirurgia, com soluo fisiolgica, at atingir o volume desejado para a prtese de silicone. Assim, o tecido  preparado para a colocao das prteses mamarias definitivas. Angelina saiu do centro cirrgico com seis drenos, trs de cada lado. Dois dias depois da cirurgia, ela recebeu o resultado da bipsia: no havia nenhum vestgio de clulas cancerosas
27 de abril
Dez semanas aps a mastectomia, Angelina foi finalmente submetida  reconstruo mamaria, com o implante das prteses de silicone 
Fonte: Fabricio Brenellil mastologista

BOMBA-RELOGIO
A biomdica Camila Matinas dos Santos, de 28 anos,  portadora da mutao no gene BRCA1. A descoberta ocorreu no ano passado, depois que sua irm, Carolina, hoje com 29 anos, recebeu o diagnstico de cncer de mama. A me delas. Maria Amlia, de 52 anos, tambm se submeteu ao teste. Como as filhas, ela carrega o defeito gentico. Maria Amlia optou pela dupla mastectomia preventiva e pela extirpao dos ovrios. A caula das Mathias dos Santos ainda no est segura para entrar na sala de cirurgia e vem sendo submetida a exames peridicos semestrais. "Eu me sinto como se estivesse carregando uma bomba-relgio", define ela. "Perdi a tranquilidade."

BATALHA VENCIDA
Em 2008, Maria Eduarda tinha apenas 3 anos quando sua me, a artista plstica Tnia Luiza Gine Faitarone, descobriu ter cncer de mama. Na ocasio, Tnia estava com 35 anos. No momento do diagnstico, o tumor j estava com quase 4 centmetros. Tnia tinha reparado no ndulo, mas achou que ele decorresse dos dois anos de amentao da filha. O cncer estava em estgio avanado, com metstase no fgado. Ela foi submetida a tratamento quimioterpico para a reduo do tamanho do tumor e, em seguida, passou por uma mastectomia. O que parecia improvvel alguns anos atrs aconteceu. Os focos da doena no fgado de Tnia desapareceram. H quarenta anos, mulheres com indcio de clulas tumorais no fgado no tinham expectativa de vida superior a um ano depois do diagnstico. Tnia toma um quimioterpico, faz acompanhamento mdico de trs em trs meses e observa feliz o crescimento de Maria Eduarda.

NO ALVO
No ano passado, ao receber o diagnstico de um cncer de mama raro e agressivo (do tipo HER-2). Maria Ivanilde Ribeiro, de 60 anos, sentiu-se desenganada. Em apenas quatro dias, o ndulo na mama esquerda dobrou de tamanho. "Estava me preparando para morrer", conta ela. Submetida a radioterapia e tratada com o medicamento trastuzumabe, uma terapia-alvo que ataca diretamente as clulas tumorais, ela reagiu. Apesar dos efeitos colaterais, como a queda de cabelo e os enjoos, Maria Ivanilde encontrou a esperana e a fora de que precisava para lutar e vencer a doena.

RECOMEO
A preocupao com o cncer surgiu quando o pai da dentista Andra da Riva Tamaoki descobriu um tumor na prstata, em 2001. Assustada, ela comeou a fazer check-ups frequentes de modo a evitar que fosse pega de surpresa pela doena. Durante sete anos, os exames anuais no detectaram nada de anormal, alm de um ndulo benigno. Em 2008, porm, o temido diagnstico veio. Andra estava com cncer de mama  e de um dos tipos mais agressivos.  Durante trs anos, ela passou por uma mastectomia, sesses de rdio e quimioterapia e de fisioterapia para fortalecer a musculatura dos braos.  No foi nada fcil, mas poderia ter sido pior se o tumor tivesse avanado.

ELA TAMBM PODE
O diabetes e a idade avanada no impediram que Geralda de Souza Oliveira, hoje com 85 anos, fosse tratada do cncer de mama no ano passado. Por causa da idade e das complicaes de sade, o primeiro mdico que a atendeu no quis oper-la  uma atitude comum entre os mdicos da dcada de 80. Graas a cirurgias mais concerbadoras e tratamentos mais precisos, pacientes como Geralda hoje em dia podem, sim, ser operadas. Submetida a uma quadrantectomia (retirada de apenas um quadrante da mama) e a dezesseis sesses de radioterapia, Geralda se recuperou sem sobressaltos.

SOB CONTROLE
Graas aos avanos no conhecimento do cncer de mama e no aperfeioamento dos mtodos de diagnstico, a doena j no  mais implacvel como era em um passado recente.
80% dos tumores malignos de mama so diagnosticados hoje em estgio inicial.
60%  dos casos, h quarenta anos, eram encontrados em fase de metstase.

DE TAMANHO MENOR
O dimetro dos tumores no momento do diagnstico ao longo dos ltimos anos
1996: 3 cm
201: 1,5 cm
HOJE: Menos de 1 cm

QUANTO MAIS CEDO O DIAGNSTICO, MAIORES AS CHANCES DE CURA
Estgio: 0
Caracterstica do Tumor: Tumor in situ (restrito aos ductos mamrios)
Probabilidade de Cura: 99%
Estgio: I
Caracterstica do Tumor: Tumor de at 2 centmetros, sem nenhuma evidncia de ter se espalhado para os gnglios linfticos.
Probabilidade de Cura: 95%
Estgio: II
Caracterstica do Tumor: Tumor de at 5 centmetros com o comprometimento dos gnglios linfticos.
Probabilidade de Cura: 85%
Estgio: III
Caracterstica do Tumor: Tumor com mais de 5 centmetros, com o comprometimento dos gnglios linfticos.
Probabilidade de Cura: 55%
Estgio: IV
Caracterstica do Tumor: Metstases distantes, como no fgado, ossos e pulmes.
Probabilidade de Cura: 18%
Fonte: Guilherme Garcia, diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia.

AS ARMAS DISPONVEIS
Nos ltimos trinta anos, o refinamento dos exames de imagem e o desenvolvimento de exames genticos propiciaram diagnsticos mais precoces e, consequentemente, a reduo nas taxas de bito por cncer de mama.
Fonte: Elvira Ferreira Marques/Hospital A. C. Camargo
EXAME: Mamografia  A disseminao da mamografia a partir dos anos 70 e 80 diminuiu entre 15% e 30% as mortes pela doena. Hoje, os mamgrafos digitais conseguem ampliar em at vinte vezes a imagem de uma alterao, possibilitando assim a descoberta de tumores do tamanho de um gro de areia. As primeiras mquinas s flagravam ndulos a partir de 1 centmetro de dimetro.
INDICAO: Um exame aos 35 anos, que servir de base para avaliaes futuras, para pacientes sem histrico familiar da doena; mamografias anuais para todas as mulheres a partir dos 40 anos.
EXAME: Mamografia 3D  Aprovada em 2011, a mamografia 3D (ou tomossntese) produz imagens precisas do contorno do tumor - quanto mais irregular ele for, maior  a probabilidade de cncer. Combinada  mamografia digital, a tomossntese aumenta em 12% o diagnstico precoce.
INDICAO: Para mulheres que apresentam tumores de contornos irregulares; no caso de jovens com mamas densas, pode substituir a mamografia convencional.
EXAME: Ultrassonografia  Entrou para o arsenal de diagnstico do cncer de mama nos anos 90.  um exame bastante preciso para diferenciar um ndulo slido de um cisto (ndulo composto de lquido).
INDICAO: Como mtodo complementar  mamografia, sobretudo para mulheres jovens com mamas densas. 
EXAME: PEM (PET-CT da mama)  Tecnologia de ltima gerao,  uma espcie de tomografia computadorizada desenhada especificamente para analisar os detalhes anatmicos das mamas e medir a atividade metablica das clulas mamarias  o que permite a diferenciao entre as leses benignas e as malignas. Aprovada nos Estados Unidos em 2012, ainda est em testes no Brasil.
INDICAO: Para mulheres jovens e pacientes em tratamento contra a doena, para o acompanhamento da leso.
EXAME: Ressonncia magntica  Altamente sensvel, a ressonncia magntica detecta alteraes que passam despercebidas pela mamografia - por vezes, a sobreposio dos tecidos mamrios dificulta sua anlise pelo raio X. O exame requer o uso de contraste e, por isso, possibilita ao mdico visualizar com mais preciso a localizao do tumor, inclusive os focos da doena ao seu redor.
INDICAO: Para mulheres jovens com risco gentico para cncer de mama e pacientes com leses suspeitas ou queixas mamarias cujas mamografia e ultrassonografia so negativas ou inconclusivas.
EXAME: Exames genticos  Entre 5% e 10% de todos os casos de cncer de mama esto relacionados  herana de mutaes genticas. Por meio de um exame de sangue,  possvel analisar a presena de tais alteraes. A maioria dos casos est relacionada a falhas nos genes BRCA1 e ERGA 2 - que se tornam incapazes de controlar a multiplicao celular, o que favorece o aparecimento da doena. Os cnceres originados de tais defeitos tendem a se manifestar muito cedo, antes dos 45 anos.
INDICAO: Para mulheres que tiveram a doena antes dos 45 anos ou para aquelas com pelo menos dois parentes prximos (como me, filha, irm) que tenham tido cncer de mama ou de ovrio.

MENOS MUTILADORAS
At os anos 80, qualquer tumor maligno na mama era tratado com mastectomia. De l para c, novas tcnicas tornaram as cirurgias menos agressivas e mais preservadoras. At a mastectomia ficou menos radical.
  Mastectomia - A retirada da mama  indicada aos casos mais graves e s pacientes que, portadoras de mutaes genticas, optam pela cirurgia preventiva. A mastectomia de hoje guarda pouca semelhana com as primeiras operaes, no sculo XIX. Hoje, a musculatura peitoral e a maioria dos gnglios so preservadas.  possvel ainda fazer a reconstruo da mama imediatamente aps a operao.
  Quadrantectomia - Tumores com at 3 centmetros de dimetro atualmente so extirpados em uma cirurgia mais preservadora, a quadrantectomia, que prev a retirada do tumor com margem de tecido mamrio adjacente saudvel. Usada desde os anos 80, a tcnica requer o uso de radioterapia depois da cirurgia.
  Linfonodo sentinela - At pouco tempo atrs, como forma de prevenir a recidiva, durante a cirurgia para a extirpao do tumor, os mdicos retiravam todos os gnglios da axila. Agora, durante a cirurgia, o patologista examina o primeiro, o linfonodo sentinela. Se ele no estiver contaminado por clulas cancerosas,  sinal de que a doena est restrita  mama e no  necessrio retirar os demais gnglios. Com isso, diminuem drasticamente os riscos de inchao, infeces locais e perda de sensibilidade nos braos.
  Cirurgia radioguiada - Quando um tumor  pequeno, invisvel a olho nu, antes da cirurgia o paciente recebe a injeo de uma substncia radioativa para determin-lo com exatido. No momento da operao, um equipamento indica a localizao do ndulo.

MENOS RECIDIVAS
Com os avanos dos tratamentos, o risco de um tumor de mama voltar caiu drasticamente. Atualmente, alm de a quimioterapia estar mais precisa e potente, e a radioterapia, mais segura, o tratamento do cncer de mama dispe de mtodos que o personalizam, o que contribui sobremaneira para a sua eficcia.
  Radioterapia - O uso da radiao para o controle dos tumores malignos da mama data do incio do sculo XX. A radioterapia destri as clulas cancerosas, queimando-as. Os aparelhos mais modernos permitem determinar o local preciso da mama e a dose adequada de radiao.
  Radioterapia intraoperatria - Ainda na mesa de cirurgia, logo depois da retirada do tumor, a paciente recebe uma nica dose de radioterapia. Uma aplicao de cinco a dez minutos  to eficaz quanto o tratamento convencional, que consiste em seis semanas de sesses dirias.  indicada a pacientes em estgio inicial.
  Quimioterapia - Recomendada a mulheres com cncer no restrito  mama, a quimioterapia pode tambm ser realizada antes da cirurgia, de modo a reduzir o tamanho do tumor. Os medicamentos mais modernos, como o trastuzumabe, pertencem s terapias-alvo. Eles agem de forma inteligente, impedindo a proliferao das clulas tumorais sem afetar as saudveis.
  Anlise gentica do tumor - Testes capazes de determinar o risco de recidiva da doena foram desenvolvidos nos anos 2000. A partir de tal anlise, o mdico consegue determinar o tipo de tratamento mais adequado para cada paciente. Os testes mais conhecidos so o MammaPrint, que avalia setenta genes do tumor, e o Oncotype, com 21 genes.

MEDOS VENCIDOS
Diretor cientfico do Instituto Europeu de Oncologia, Umberto Veronesi foi responsvel pelo desenvolvimento da quadrantectomia, uma cirurgia conservadora da mama. Veronesi falou a VEJA sobre as perspectivas para o futuro do tratamento do cncer de mama.

O INCIO Quando comecei minha carreira como oncologista, no incio da dcada de 50, o tratamento do cncer de mama era muito invasivo e mutilador. A mortalidade era crescente e o mundo cientfico conformou-se com essa situao desesperadora. Eu no podia aceitar a dor que essa doena causava s suas vtimas. Elas no sofriam apenas a dor fsica, mas tambm a perda da feminilidade. Naquele tempo, a remoo das mamas e dos linfonodos era uma regra inquestionvel para o cncer em qualquer estgio. 

A QUADRANTECTOMIA Quando apresentei meu projeto de pesquisa em um congresso mdico, todos protestaram contra a minha ousadia  para no dizer imprudncia. Atrevi-me a pr em discusso algo que era considerado a grande conquista da cirurgia para o cncer, a mastectomia Halsted. Lembro de um professor de cirurgia me defendendo, dizendo que o progresso na cincia s vezes precisa de ideias corajosas, mesmo que aparentemente fujam  tradio. Em 1981, os resultados publicados no The New England Journal of Medicine mostraram que a cirurgia conservadora da mama era to efetiva quanto a mastectomia radical. 

O FUTURO Precisamos focar trs objetivos: reduo na agressividade dos tratamentos (cirurgia, radioterapia e quimioterapia), antecipao do diagnstico e aumento da participao das mulheres na deteco  precoce. Se alcanarmos esses objetivos, poderemos chegar a uma mortalidade por cncer de mama prxima de zero nas dcadas futuras. O cncer de mama  um dos que mais se beneficiaram dos avanos cientficos e tecnolgicos e frequentemente representa um modelo para estudar e testar novas abordagens teraputicas para outros tipos de cncer. H vrias razes para isso. O seio  um rgo externo e por isso no  difcil estud-lo com tcnicas de imagem. Como a doena  frequente, facilita a organizao de pesquisas clnicas. O papel das mulheres na conscientizao no deve ser menosprezado. Participando dos programas de deteco precoce, elas venceram seus medos e conquistaram a prpria salvao. 


3. VIDA DIGITAL  BANDA ESTREITA, LENTA E CARA
O Programa Nacional de Banda Larga, lanado h trs anos pelo governo federal, prometia internet de 1 mega a 35 reais mensais. Hoje, com velocidade inferior e custo bem mais alto, no chegou  metade das cidades prometidas.
PIETER ZALIS E ALEXANDRE ARAGO

     Se o governo federal fosse uma empresa privada, poderia ser alvo de uma ao por propaganda enganosa no Procon. Seu Programa Nacional de Banda Larga (PNBL), lanado com foguetrio h trs anos, prometia oferecer internet rpida e barata para que os brasileiros das regies mais pobres pudessem estudar, informar-se, divertir-se e movimentar a economia comprando pela rede. Os objetivos seriam atingidos com a criao, a partir de trechos j existentes, de uma rede nacional de fibra ptica, a ser gerida pela Telebrs  a estatal de telecomunicaes que foi reativada especialmente para dar vida ao programa. O governo ofereceria a estrutura e abriria concesses para que operadoras de telefonia conquistassem novos clientes. O anncio oficial dizia que, at o fim de 2014, 40 milhes de pessoas, em 4278 municpios de todos os estados do Brasil, poderiam contar com o servio. Na propaganda, uma maravilha. Na vida real, porm, nada saiu como o anunciado. Passada mais da metade do prazo estipulado para a concluso do plano, o governo descumpre todas as promessas que fez. 
     A reportagem de VEJA telefonou para as prefeituras dos 100 municpios escolhidos para ser os primeiros a receber a banda larga do governo. O levantamento, acrescido de dados fornecidos pela Telebrs, concluiu que, em 46 deles, a banda larga popular ainda  uma miragem. Ao todo, a internet est disponvel em apenas 2412 das cidades inscritas no programa, ou seja, 56% do total. No h mais tempo nem verba para cumprir a meta e, mesmo nos locais a que o PNBL chegou, o servio  bem mais caro do que deveria e a banda no pode ser chamada propriamente de larga. 
     Se a promessa de conexo de 1 megabit por segundo estivesse sendo cumprida, um usurio teria de esperar no mais do que trs minutos e meio para, por exemplo, carregar o vdeo da msica Gangnam Style, o mais visto do YouTube no ano passado. No  o que ocorre. Em Santo Antnio do Descoberto (GO), a primeira cidade contemplada pelo programa, a conexo, que nunca foi boa, piorou muito desde o incio do ano. Embora disponha de uma sala de informtica montada, a professora Rosemary Tavares de Oliveira, da Escola Municipal Machado de Assis,  obrigada muitas vezes a limitar as aulas a atividades off-line. "Tenho dificuldade de abrir sites didticos para mostrar aos alunos", reclama. 
     Se comparado a outros programas pblicos de popularizao da banda larga pelo mundo, o brasileiro  uma piada. Fica atrs no s dos similares existentes em potncias digitais, como a Coreia do Sul e o Japo, mas tambm daqueles em operao em pases como a Eslovquia. No quesito velocidade, os nicos pases que perdem para o Brasil so Litunia e Equador, segundo estudo conduzido pela unidade de inteligncia da revista inglesa The Economist. 
     Outro compromisso que o PNBL descumpre diz respeito ao preo do servio. O governo fixou em 35 reais o valor mximo a ser cobrado do consumidor, o que no  exatamente uma barganha, mas  pelo menos 40% mais barato que a mdia do mercado. O problema  que ningum consegue ser atendido por essa tarifa. Em trs das quatro operadoras de telefonia que tm convnio com o Ministrio das Comunicaes  Oi, Telefonica e Algar Telecom , os pacotes custam at o dobro do prometido, consequncia da estratgia de venda casada. Com autorizao estatal, elas s oferecem internet a quem contrata tambm uma linha telefnica e paga uma assinatura mensal pelo pacote. Resultado: desde o terceiro trimestre de 2011, as companhias conseguiram convencer apenas 2,5 milhes de clientes a aderir aos seus planos. " muito pouco", avalia o presidente da Associao Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicaes (Abrint), Basilio Perez. 
     Todas as questes que emperram o PNBL esto relacionadas, na origem, a dois problemas endmicos no Brasil: a falta de investimento do poder pblico e a ausncia de planejamento. Entre janeiro de 2010 e abril deste ano, o governo liberou apenas 26% da verba reservada ao plano  132 milhes de reais.  uma cifra nfima diante da complexidade de um projeto de construir uma rede de fibra ptica em um pas com a dimenso do Brasil. "A Telebrs, como estatal, no tem capacidade nem dinheiro para liderar um programa desse porte", afirma o ex-ministro das Comunicaes Juarez Quadros. Na Austrlia, cujo territrio equivale a 90% do brasileiro, os investimentos previstos so catorze vezes maiores  e a velocidade da internet ser 100 vezes superior. Enquanto a Telebrs descumpre seus compromissos, o improviso toma o lugar que deveria ser do servio pblico. O municpio de Presidente Tancredo Neves (BA), a 263 quilmetros de Salvador, escolhido para ser um dos 100 primeiros contemplados pelo programa, at hoje est desconectado. Para no ficar isolada do mundo, a prefeitura contratou uma provedora de acesso que fica numa cidade vizinha. Mesmo assim, a internet  to lenta que o prefeito e seus secretrios mal conseguem enviar e receber e-mails. Na alagoana Messias, a 34 quilmetros de Macei, o empresrio Erisson Cavalcante montou uma empresa de acesso  internet para aproveitar o vcuo do servio pblico: "A Telebrs esteve aqui no ano passado para iniciar a instalao da banda larga, mas nunca voltou", conta Cavalcante. No municpio de Vespasiano Corra (RS), predominantemente rural, o prefeito Aurio Andr Coser (PP) usou recursos municipais para espalhar antenas de forma a levar a web aos cantos mais afastados. "A velocidade no chega a ser boa, mas  razovel", diz Coser. Hoje, em uma fazenda em Vespasiano Corra,  possvel ter, por 36,90 reais, acesso  web com velocidade de 256 kilobits por segundo. Assim, se tiver catorze minutos de pacincia, qualquer morador consegue assistir a Gagnam Style. Melhor do que nada. 
     Com o prazo praticamente vencido, o PNBL ainda tem muitas lacunas. Mas, em vez de empenhar-se para resolv-las, o governo adotou outra sada. Vai lanar em julho o PNBL 2.0, com mais propaganda e novas promessas, como a oferta de internet a 4 megabits por segundo e a desonerao fiscal para empresas que aderirem ao plano. Remendar um projeto no cumprido com uma "nova verso" dele mesmo foi exatamente a receita usada no Programa de Acelerao do Crescimento (PAC) e no Minha Casa, Minha Vida. Estudo do Banco Mundial mostra que 10% de aumento de acesso  banda larga pode gerar um crescimento de at 1,38% no PIB de um pas. Com as tmidas taxas de crescimento apresentadas nos ltimos dois anos e um incio de ano desanimador para a economia, esse impulso viria bem a calhar. Mas, enquanto o mundo gira a muitos megabits por segundo, o governo brasileiro segue rodando a manivela.

DIFCIL ACESSO
O Brasil tem a segunda internet pblica mais lenta do mundo (em megabits por segundo).
Coreia do Sul, Japo, Singapura: 1000
Austrlia, Catar, Espanha, Estnia, Finlndia, Frana, Grcia, Nova Zelndia, Sucia: 100
Alemanha, Dinamarca, Reino Unido: 50
Eslovquia: 30
Itlia: 20
Lbano: 15
Malsia: 10
BRASIL: 1
Litunia: 0,512


4. GUSTAVO IOSCHPE  EDUCAO E TECNOLOGIA: O SARRAFO SUBIU
     H uns meses visitei escolas pblicas na regio de Itaperuna, no interior fluminense. Uma delas era um brinco, com uma direo que conseguiu engajar pais e professores para gerar uma melhoria significativa: seu Ideb passou de 3,3 para 7,7 em quatro anos. Na outra escola o que se via era um quadro de abandono (os banheiros dos alunos no tinham tampa nas privadas, nem papel higinico ou toalha de papel). Seu Ideb foi de 3,5 em 2011, e estava estacionado nesse patamar havia anos. 
     Fui conversar com o diretor dessa escola com problemas. Ao inquiri-lo sobre a razo das deficincias de sua escola, o homem engatou um discurso ensaiado que vem se tornando cada vez mais comum nas discusses educacionais do Brasil: "O problema  que os alunos so de uma gerao digital e os professores ainda so analgicos". O uso intenso da tecnologia, por parte dos alunos, teria criado um problema insupervel de comunicao entre eles e seus professores, e parecia ser impossvel que um professor munido apenas de "cuspe e giz" pudesse atrair o interesse desse aluno quase ciberntico. No meio educacional a "patologia" j  foi inclusive identificada e tem at termo mdico: SPA  sndrome do pensamento acelerado (e eu que pensava que pensar rpido era uma virtude...). A ideia  furada.  mais uma tentativa de culpar os alunos pelo insucesso da escola, prtica dominante nas discusses educacionais brasileiras. 
     Falei ento ao diretor sobre a escola que estava na sua vizinhana, tambm fazia parte da mesma rede estadual e tinha resultados to melhores. Perguntei como explicar aquela diferena. Ele disse que no entendeu a pergunta, pediu que eu a repetisse. Fui mais explcito: se o problema era geracional e ligado ao uso de tecnologia, como era possvel que uma escola vizinha, atendendo a um pblico parecido, tivesse resultados to melhores do que os  dele? Ele pediu licena para sair e tomar uma gua. Na volta, pediu que falssemos sobre esse assunto. 
     Seria muito espetacular se a proliferao de tecnologias, e seu uso pelas novas geraes, fosse o causador dos problemas educacionais brasileiros. Primeiro, porque desde o comeo da Revoluo Industrial, pelo menos, tem havido sempre descompassos tecnolgicos significativos entre geraes. Pense em todas as tecnologias descobertas e popularizadas nos ltimos 200 anos e seu potencial impacto sobre a educao. Pense no que era o mundo antes do telgrafo, em que comunicaes levavam semanas para chegar a lugares distantes, e a realidade depois da sua inveno, em que notcias eram transmitidas globalmente quase em tempo real. Pense no impacto do rdio. Da televiso. Do telefone. Do telefone celular. Talvez a internet seja a revoluo mais importante de todas, mas ela certamente vem num contnuo tecnolgico em que as distncias e os tempos so encurtados. Durante todas essas disrupes tecnolgicas, a educao no s continuou a funcionar como melhorou: nunca antes na histria deste planeta tantas pessoas tiveram acesso ao conhecimento quanto hoje. 
     Em segundo lugar, a ideia  problemtica por partir do pressuposto de que os avanos tecnolgicos esto inacessveis a adultos, o que  falso. A tecnologia  hoje to simples e user-friendly que at a minha av usava Skype e e-mail. Sim, provavelmente a nova gerao ter maior familiaridade com as novas tecnologias, porque nasceu e cresceu com elas, mas  uma diferena de grau, no de ordem de grandeza. 
     Se a prevalncia da tecnologia fosse um fator de comprometimento educacional, seria de esperar que as regies em que as tecnologias so mais difundidas tivessem os piores desempenhos educacionais. Se olharmos para os testes internacionais mais importantes de educao, vemos o oposto: os pases lderes, como Coreia do Sul e Finlndia, esto entre os mais tecnolgicos do mundo. Estudos para o Brasil (disponveis em twitter.com/gioschpe) mostram que a posse de computador em casa melhora o desempenho educacional do aluno, j controladas as diferenas de renda. 
     Isso no quer dizer que a tecnologia no tenha nem ter impactos importantes sobre a educao. Apenas no creio que eles sejam desse tipo quase mgico decantado pelos pedagogos. Acredito que as novas tecnologias, especialmente a internet, esto tendo sobre a educao o mesmo efeito que tm sobre uma srie de outras reas: desintermediao. Para quem no conhece o termo,  mais fcil explic-lo com exemplos.  
     No mundo pr-internet, precisvamos de intermedirios para realizar uma srie de atividades. Precisvamos de agncia de turismo para comprar passagem de avio, de um jornal ou revista para receber notcias, de editoras e livrarias para ler um livro, de mdicos para conhecer doenas e opes de tratamento. Precisvamos tambm de professores e escolas para ter acesso ao conhecimento acumulado na histria humana. A internet est enfraquecendo ou eliminando totalmente esses intermedirios. Com ela, podemos comprar passagens na companhia area, ler sobre notcias de lugares remotos diretamente de suas fontes ou pela recomendao de amigos etc. O resultado  que os intermedirios precisam melhorar: ou passam a agregar novos valores, ou so extintos. As agncias de turismo que simplesmente vendiam passagens j devem ter fechado. Uma boa agncia hoje precisa conhecer profundamente os destinos, montar roteiros personalizados ao gosto do cliente etc. Um jornal ou revista no pode mais apenas resumir os fatos/notcias do dia ou da semana anterior: precisa analis-los, ter mais profundidade, trazer furos de reportagem constantes, conhecer profundamente seu pblico. No  que essas instituies precisem fazer algo de diferente ou inimaginvel. Um bom agente de viagens hoje j seria considerado um bom agente de viagens h vinte anos. Eis o que mudou: no h mais tolerncia para os medocres. O sarrafo subiu: nessas reas, para ser relevante, o nvel de entrega de servios precisa ser muito mais alto, porque o basico o sujeito j consegue em uma busca on-line de dois minutos. 
     Com educao  a mesma coisa. No  que a educao de vinte ou cinquenta anos atrs no "funcione" no crebro da meninada atual. Uma tima aula  cativante, com um professor que domina a sua matria e a maneira de comunic-la e busca ativamente a compreenso e a participao do alunado  funcionava h 100 anos e continua funcionando hoje. O que mudou  que a aula em que um professor simplesmente regurgitava uma srie de fatos desconexos e inteis, que precisavam ser memorizados e depois devolvidos em um dia de prova, deixou de fazer sentido, pois esses mesmos fatos podem ser pesquisados on-line, atravs de textos, aulas a distncia ou videoaulas. No  que essa era uma aula boa que hoje virou ruim. Ela sempre foi uma aula ruim. Mas, na poca em que os alunos dependiam exclusivamente do professor para obter qualquer conhecimento, essa ruindade ficava mascarada e era aceita. Hoje o sarrafo subiu. As boas aulas no precisaro mudar, mas os professores de baixa qualidade precisaro de uma reforma profunda em seu jeito de ensinar. Como, infelizmente, a maioria das aulas brasileiras tem qualidade abaixo da crtica, ouvimos muito agora esse discurso sobre as dificuldades impostas pela internet, pelas tecnologias etc. Mas, em vez de compreender esse momento como um de desintermediao e subida do sarrafo (um processo difcil), a maioria dos educadores e polticos busca a sada fcil, que  dar um verniz tecnolgico a uma m escola enchendo-a de engenhocas. Junte-se a essa mistificao a ganncia dos fabricantes desses aparelhos e o fascnio da populao por tudo o que  "muderno" e temos a tempestade perfeita para enganar os nscios. 
     Se a escola de seu filho ou cidade se vende por conta dos aparatos tecnolgicos de que dispe, tome muito cuidado. Assim como um babaca no se torna inteligente ao transferir suas divagaes para um blog ou pgina de rede social, um mau professor no passar a dar uma boa aula simplesmente por contar com um tablet ou uma lousa mgica.
GUSTAVO IOSCHPE  economista


5. COMPORTAMENTO  ALTO PUNK, BAIXO PUNK
O instituto de moda do Metropolitan Museum abre uma exposio sobre a influncia do punk na alta-costura. Repetindo: influncia do punk na alta-costura. Boa, no?
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Anna Wintour, a mulher que inspirou a figura central do filme O Diabo Veste Prada,  uma celebridade em Nova York. Todos os anos, numa segunda-feira da primavera, Wintour, editora-chefe da Vogue, participa da abertura da exposio de moda do Metropolitan Museum of Art. Em 2008, a exposio mostrou a influncia na alta-costura das roupas e uniformes dos super-heris das histrias em quadrinhos. H dois anos, a exibio anual trouxe a beleza dramtica da obra do estilista ingls Alexander McQueen, que se suicidou aos 40 anos. Sucesso estrondoso. Bateu recorde de pblico ao atrair mais de 600.000 visitantes. Desta vez, a diviso de moda do Met saiu-se com uma opo arriscada. Resolveu beber no estilo punk. 
     A exposio chama-se Punk: Chaos to Couture (Punk: do Caos  Alta-Costura). Nas palavras do ingls Andrew Bolton, curador da mostra, publicadas no catlogo da exposio, a aventura  o seguinte: "Ainda que a democracia do punk esteja em oposio  autocracia da moda, designers continuam a se apropriar do vocabulrio esttico do punk para capturar sua rebeldia juvenil e sua fora agressiva". Em toda essa frase, deve-se prestar ateno especial bem no incio, na conjuno "ainda que". 
     Distribuda em sete galerias, a exposio tem cerca de 100 modelos e alguns originais dos anos 70 justapostos aos modelos de grandes estilistas  e um rosrio de "ainda qus". Ainda que haja um longo preto da Chanel todo rasgado, como manda o figurino punk, o rasgado  meticulosamente distribudo conforme o trao de Karl Lagerfeld. Ainda que haja casaco longo de McQueen de plstico-bolha preto, pois os punks usavam plstico at de sacos de lixo, o plstico-bolha  s imitao. Ainda que haja um Versace com alfinetes de segurana expostos, tal como os punks difundiram, os alfinetes so dourados e prateados e vm alinhados com elegante parcimnia num longo preto. Num manequim masculino, ainda que haja sangue na camisa social branca  altura do corao, o sangue da Dior  feito de delicados canutilhos vermelhos. Encerrando a exposio, um manequim em nu frontal, apenas com as costas cobertas por um Margiela de seda preta, despede-se do pblico mostrando o dedo mdio da mo direita. Ainda que o gesto seja o mais conhecido sinal obsceno, manequim em nu frontal  mais puritano que a Vnus de Botticelli. 
     Diante disso tudo, ainda que a exposio tenha elegncia e vitalidade, ela no funciona. Os elementos do punk esto todos l: correntes, cadeados, alfinetes, lminas de barbear, zperes, coturnos, tachas, rebites. S falta o essencial: a rebeldia. A alta-costura simplesmente no capta o ingrediente hostil e ameaador da esttica punk. A democracia do punk no funciona na autocracia da moda, ainda que o Metropolitan assim queira. O jornalista Legs McNeil, fundador da revista Punk em 1976, veculo que se tornou porta-voz do movimento em Nova York, descreve a exposio: "No evoca o esprito de nada do que estvamos fazendo nos anos 70. Falta autenticidade.  s uma desculpa para ricos e estrelas do cinema exibirem seus novos looks e seus novos filmes.  uma fantasia masturbatria de Anna Wintour e editores da Vogue. A ns, os velhos punks, at d alguma publicidade. Mas poderamos ficar sem isso". 
     Em meados dos anos 70, os filhos da classe mdia de Nova York e, logo depois, os filhos da classe trabalhadora de Londres, inspirados na nova msica, inauguraram uma esttica toda prpria no vestir-se. Entre eles, o ingls John Lydon, ou Johnny Rotten, vocalista da banda Sex Pistols. S depois  que os punks ampliaram sua expresso para outros campos, como a poltica. Em seu bero havia moda  ou visual, para ficar numa expresso mais aceitvel para os punks , mas a essncia de sua esttica sempre esteve na transgresso, na anarquia, na desconstruo. Por isso, os punks inventaram seu estilo usando materiais do lixo e, mais significativamente, smbolos da cultura de consumo. Eles  e no Andy Warhol  eram os rebeldes a debochar da massificao por trs das latas de Coca-Cola. A indstria da alta-costura, por sua prpria natureza, no capta essa essncia. 
     A exposio do Met fica em cartaz at 14 de agosto e tem todos os ingredientes para virar sucesso de pblico  ainda que o alto punk seja o que foi concebido nas ruas pelos jovens dos anos 70 e o baixo punk esteja, sanitarizado e liofilizado, nos sales do museu. Mas o melhor mesmo  a lio involuntria da exposio. Ensina que nem tudo pode ser apropriado e incorporado sem o risco de virar farsa. H essncias irredutveis nos movimentos culturais. Ainda que seu objetivo fosse exatamente o oposto, a exposio ajuda a lembrar que autenticidade, por definio, no se fabrica. Quer dizer: Anna Wintour pode ser o diabo, mas no  punk.


6. ESTILO  FOGO NAS ROUPAS
Afinal, para que serve um stylist? Yan Acioli, responsvel pelo visual de muitas famosas, demonstra: veste (ou quase despe) as clientes de forma que apaream ainda mais.
MARLIA LEONI

 com um sorrisinho que o stylist Yan Acioli conta sobre um de seus mais recentes trabalhos: "Um marido me deu de presente para a mulher dele. Eu e ela vamos sair juntos para refazer o closet". Aos maridos que no entenderam nada, ou entenderam errado, um esclarecimento: a profisso de nome complicado e ambguo de Acioli define os conhecedores de moda que orientam mulheres bem de vida, famosas ou no, sobre a melhor maneira de se vestir. Acioli, de 31 anos,  provavelmente o stylist mais bem colocado no Brasil, conhecido pela maneira com que procura eliminar a vulgaridade de trajes muito ousados. Projetou-se com sua cliente mais antiga, a apresentadora Sabrina Sato, com quem estabeleceu uma relao nica a partir do primeiro contato, h oito anos. "Quando viajo para o exterior, levo o carto de crdito dela para compor seu acervo de roupas", conta. Hoje, elas j ocupam dois quartos do apartamento dela em So Paulo e um terceiro, no do Rio de Janeiro. Sob a orientao de Acioli, Sabrina nunca repetiu uma roupa no programa Pnico, aprimorou o visual e ganhou um amigo com quem v filmes  noite, comendo pipoca, e que carrega a compromissos profissionais  os onipresentes eventos  para retocar maquiagem e cabelo. Sempre com as antolgicas pernas de fora. "Eu j gostava de usar short e salto alto, mas com o Yan os saltos aumentaram e os shorts diminuram ainda mais", descreve Sabrina. 
     O gosto do brasiliense Acioli pela espetacularizao do visual foi posto   prova logo em sua estreia como stylist da cantora Ivete Sangalo, a quem props uma arriscada combinao de collant de listas brancas e pretas com pantalona de tigre. "Fui para o Rio de Janeiro com duas malas de roupas, emprestadas por lojas de So Paulo. Levei tambm essas duas peas, que pedi para um estilista fazer especialmente para Ivete", recorda, emocionado. "Ela viu tudo e quis vestir justamente as duas. Chorei o voo todo de volta." Parece exagero ou futilidade, mas os stylists tm uma participao quantificvel na formao da imagem de pessoas famosas. Quanto mais a roupa  comentada, mais a atriz, cantora ou correlata aparece na infinitude de meios de reproduo de informao hoje existentes. A tal ponto que ficar bem no "tapete vermelho", as premiaes ou estreias badaladas, pode ser to ou mais importante do que o desempenho artstico propriamente dito. 
     Mulheres muito requisitadas tambm precisam se apresentar bem em compromissos que demandam trs ou mais trocas de roupa por dia. Ningum espera que Michelle Obama, Madonna ou a prpria Sabrina tenham disponibilidade para fazer compras nos volumes necessrios. Muito antes de atingirem esse nvel estelar, candidatas a famosas j comeam a usar os servios de stylists para pegar roupas, jias e outros acessrios emprestados em lojas. Num degrau acima, estilistas renomados fazem peas sob medida para as famosas. Em troca, ganham a divulgao do nome das marcas. Os stylists mais profissionais tambm fazem o contrrio: tiram o excesso de grifes dos guarda-roupas dos clientes. "Fui para Madri e vi que o armrio dele s tinha Adidas, Dolce & Gabbana e Armani, que so as marcas que o patrocinavam na poca", conta Acioli, sobre o incio do trabalho com o jogador Kak. "Faltavam peas bsicas, como camisas." Acioli passou a viajar a Paris e Milo com Kak e a mulher dele. Caroline Clico, para fazer compras. Caroline se entusiasmou com o trabalho dele. "Quase me joguei no cho para ela comprar uma cala de ona da Givenchy. Quando ela convocou uma entrevista coletiva para anunciar que havia deixado a igreja Renascer, sugeri que ela fosse com a cala. No dia seguinte, os jornais falavam mais da tal cala", gaba-se Acioli. Ele tambm convenceu a recatada cliente a cortar o cabelo e usar minissaia. 
     A diria de trabalho de um stylist como Acioli custa entre 15.000 e 20.000 reais. Este tambm  o preo que ele cobra para comparecer aos tais eventos. De graa, s sua paixo pelas clientes. Carolina Dieckmann " o amor da minha vida", derrete-se. Sob sua orientao, a atriz passou a usar roupas com pelo menos um foco de atrao  e de fotos , como vestidos de cauda longa ou blusas com as costas de fora. Mariana Rios, a Drika da recm-encerrada Salve Jorge, foi convencida por ele a usar top com a barriga de fora. "Fiquei com medo, mas ele insistiu tanto que eu tomei coragem", diz Mariana. Pelo visto, ela tambm tomou gosto pela coisa. 

SEXY, SEM APELAO
As sugestes de Acioli para quem gosta de mostrar muito, mas teme a vulgaridade.
 Modeladores devem ser de uso contnuo, no s com roupas brancas, para atenuar salincias excessivas
 O nico tomara que caia que no cai  o que vem com bojos embutidos para os seios
 Decotes profundos s no produzem desastres com fitas dupla face, do tipo que cola na pele e na roupa
 Sapatos de salto escapando dos ps passam imagem de desleixo; a soluo  usar palmilhas de silicone
 Gordurinhas extras saltando onde os sutis apertam so incontrolveis; melhor o decote de ombro a ombro


7. HISTRIA  OS OSSOS DO SOCIALISMO
Os habitantes da primeira colnia inglesa nos Estados Unidos recorreram ao canibalismo para sobreviver  ineficincia do sistema coletivista em que viviam.
DUDA TEIXEIRA

     Aos 14 anos, a jovem Jane chegou em um navio de suprimentos a Jamestown, a primeira colnia inglesa na Amrica, em 1609. A causa de sua morte, meses depois,  um mistrio, mas sabe-se que seu cadver foi desmembrado para ser devorado por um grupo de colonos. Seu crnio foi aberto e a carne do seu rosto foi destrinchada por uma pessoa sem experincia com a faca, o que pode ser constatado pela hesitao das marcas deixadas na testa e na mandbula. A tbia foi descarnada por algum com maior conhecimento do ofcio. Esses ossos, encontrados no ano passado no que sobrou do poro de uma antiga cozinha, so o primeiro indcio arqueolgico do canibalismo nas colnias pioneiras, onde hoje fica o estado americano de Virgnia. Essa prtica j havia sido registrada em cartas e outros relatos histricos. A descoberta foi revelada no incio deste ms. 
     O horripilante destino de Jane, como a garota foi batizada pelos arquelogos,  uma exceo, restrita  penria enfrentada pelos moradores de Jamestown no inverno do fim de 1609 e incio de 1610. Uma anomalia daquelas que s acontecem quando o ser humano atravessa condies extremas o bastante para fazer desmoronar qualquer tabu. Jane foi devorada por seus pares como consequncia do fracasso do modelo de produo coletiva implantado nos primeiros anos da colonizao dos Estados Unidos. A propriedade era comunitria, e o fruto do trabalho era dividido igualmente entre todos. Era, portanto, uma experincia que antecipava os princpios bsicos do comunismo. Deu no que deu. Sem estmulo para o trabalho, os habitantes de Jamestown eram incapazes de produzir um excedente de alimentos para os perodos de estiagem ou de inverno. No ano em que Jane foi canibalizada, seis de cada dez colonos sucumbiram  fome. A tragdia levou os primeiros americanos a rever o modelo econmico e a instituir a propriedade privada. A partir desse momento, quem trabalhasse melhor ganharia mais e poderia se resguardar para os perodos de vacas magras. Foi essa mudana, nascida do trauma de um inverno em que os colonos caram na selvageria, que permitiu aos Estados Unidos se tornar o maior gerador de riqueza do planeta e o bero do capitalismo moderno. 
     Jamestown, um forte triangular nas proximidades do Rio James, foi fundada em 1607. No incio, a relao entre os ingleses e os integrantes da tribo powhatan era amigvel. Os ndios davam-lhes alimentos em troca de peas de metal. "No havia moeda naqueles tempos. Tudo era feito por escambo", diz o arquelogo americano William Kelso, que encontrou os ossos de Jane. Foi naquele perodo que uma menina de 11 anos, Pocahontas, se enamorou do capito John Smith, que liderava os colonos. A relao entre os dois, edulcorada recentemente em desenho animado pela Disney, acabou em 1609, quando o capito foi ferido e retornou  Europa. Os colonos j no tinham nada para oferecer aos ndios em troca de comida. Findo o comrcio, comearam as hostilidades. "Os ndios sitiaram o forte. Ningum podia sair para conseguir alimentos", diz Kelso. Situao parecida aconteceu em outra colnia, Plymouth, fundada pelos colonos que chegaram no navio Mayflower e que tambm adotaram a propriedade comunitria. Eles venderam a roupa do corpo aos ndios em troca de milho. Outros roubaram gros dos ndios. Alguns se tornaram seus escravos. 
     No auge da penria de 1609, em Jamestown, centenas de novos habitantes chegaram em navios de suprimento, entre os quais Jane, e comeram todo o alimento disponvel em trs dias. A fome veio em seguida. Segundo um relato posterior do ento governador, George Percy, os moradores devoraram cavalos, cachorros, gatos e ratos. Depois, comeram sapatos e todo o couro que encontraram. Quando as opes se esgotaram, comeou o canibalismo. Percy contou que ordenou a execuo de um dos seus homens, que matou e canibalizou a esposa grvida. 
     Se no fosse o sistema de produo fracassado, a situao dificilmente teria chegado a esse ponto. O coletivismo fora implantado pela Companhia da Virgnia, empresa responsvel pela empreitada em Jamestown, por temor de que, se os colonos tivessem sua prpria terra do outro lado do Atlntico, deixariam de enviar o que produziam para Londres. Apesar do solo frtil, da abundncia de peixes, das matas ricas em veados e perus, porm, os homens no encontraram estmulos para trabalhar. "Os colonos no tinham o mnimo interesse na terra", escreveu o historiador americano Philip Bruce no fim do sculo XIX. A paz e a prosperidade s comearam a se tornar realidade em Jamestown a partir de 1611, com a chegada do administrador ingls Thomas Dale. Ele se surpreendeu ao notar que, em meio  fome, os homens dedicavam-se a vagabundear pelas ruas. A raiz do problema, ele percebeu, era o sistema comunitrio. Dale ento determinou que cada homem deveria receber trs acres de terra e s precisaria trabalhar um ms por ano para a matriz. A deciso despertou os traos hoje bem conhecidos do capitalismo americano: o empreendedorismo e a aptido para a competio. Mais produtivos, os colonos passaram a vender milho aos ndios em troca de peles de animais. O comrcio trouxe a paz. Em 1775, a economia americana j era 100 vezes maior do que em 1630. Os americanos, nesse tempo, tambm j eram mais altos que os ingleses. Antes, chegaram ao mximo da degradao humana.


8. CULTURA  PERFUME DE MODERNO
O lanamento do N5, a primeira fragrncia da Chanel, significou uma revoluo em 1921. Uma mostra em Paris d a dimenso cultural dessa ideia vendedora.

     Imagine voc uma festa em homenagem a algum, sem a presena desse algum. Pois  o que ocorre na exposio N5  Culture Chanel, em cartaz at o prximo dia 5, no Palais de Tokyo, em Paris. Tema da mostra, o perfume que significou uma revoluo quando foi lanado, em 1921, no pode ser cheirado ou visto dentro de um nico frasco, embora frascos haja em boa quantidade. Pressupe-se que o visitante conhea a fragrncia ( o espervel) ou anime-se a ir  Sephora mais prxima, para experimentar o seu olor  onde um vidro de 100 mililitros custa 123,90 euros. Quem est exposta no  a criatura, mas a criadora, Gabrielle "Coco" Chanel, acompanhada da mirade de artistas e escritores que, em diferentes rbitas, figuraram na vida de madame. Trata-se de uma estratgia que no est nas entrelinhas: exibir o N5 como fruto da extraordinria primavera cultural europeia do incio do sculo passado.  tudo verdade. O perfume em si est ausente, mas  como se cada personalidade convocada ao Palais de Tokyo  de Stravinsky, um dos amantes de Coco, a Picasso e Andy Warhol  exalasse uma gota sua.  tambm como se ele fosse atributo inerente a estrelas de primeira grandeza, de Marilyn Monroe (" o que uso para dormir", disse ela em 1952) a Catherine Deneuve, de Nicole Kidman  que ainda est por nascer, dentro da operao bsica dos manuais de publicidade. A que transforma o produto em objeto de desejo da mulher comum que se quer desejada como a beldade da vez. Sublinhe-se, contudo, que N5  Culture Chanel no foi montada para vender perfume, e sim para vender como obra de arte uma grande ideia vendedora. O comrcio, aqui,  indireto. 
     Exposies so o Carnaval dos franceses. Eles sabem surpreender. Eles sabem inovar. Esta no Palais de Tokyo ocupa dois andares. O 1 obedece  arquitetura de uma joalheria, com 110 vitrines em que se apreciam fotos, cartas, artigos, desenhos, pinturas e esculturas dos protagonistas da Paris irrequieta de quase 100 anos atrs. A referncia quase nunca  reta. Aparece vez por outra em imagens que lhe foram capturadas ou por meio de frascos pioneiros do perfume e registros de fachadas antigas da sua marca.  parte misturada ao todo. No 2 andar, perde-se o pudor. A arquitetura  de livraria, com estantes repletas de tomos sobre o N5 e a histria de Coco e da Chanel. Eles podem ser lidos nos sofs ao redor. As estantes tm gavetas com fragmentos de plantas que integram o conjunto de oitenta ingredientes do perfume sado da encomenda de madame a Ernest Beaux, russo de origem francesa, ex-fornecedor de fragrncias aos czares, instalado na Cote d'Azur depois da Revoluo Comunista de 1917. Pode-se espiar dentro de cada gaveta e, na superior, dotada de superfcie metlica espelhada que simula um tampo de frasco, sentir o cheiro da mistura das ervas e flores dispostas nos compartimentos abaixo. Desse modo, uma frao do N5  desconstruda, com o perdo do mau verbo, visual e olfativamente. H, ainda, uma sala na qual so projetados comerciais do perfume desde os anos 50. Num deles, aparece o ator brasileiro Rodrigo Santoro contracenando com Nicole Kidman.  possvel encontrar outro brasileiro na mostra  o aviador Alberto Santos Dumont. No 1 andar, quem se der ao trabalho de ler uma crnica do poeta Guillaume Apollinaire sobre a vida elegante no balnerio de Deauville, em 1914, deparar com as seguintes linhas: "O clssico senhor Santos Dumont ilumina a manh com a sua boca aberta em forma de farol de automvel, enquanto o no menos clssico senhor Helleu se esfora para temperar tanto brilho com um bigode cor de nvoa". Curioso. Maldoso. 
     O perfume se chama 5 no apenas porque tal era o nmero da frmula de Beaux aprovada por Coco Chanel. Madame considerava o 5 um nmero de sorte, tanto que suas colees eram desfiladas s nesse dia. Se ela escolheu a quinta amostra por causa da superstio  uma possibilidade em aberto. Fato  que Beaux realizou o que fora pedido por Coco Chanel  um perfume que tivesse um odor abstrato, sem que ficassem claras as suas origens florais, ao contrrio dos aromas de toucador produzidos at ento. Fundamental para tanto foi o uso de aldedos, compostos sintticos recm-desenhados pela indstria qumica. Adicionalmente, eles deram uma nota mais viva e permanente ao N5. Da mesma forma que Picasso desmontou o figurativo na pintura, Coco Chanel o fez na perfumaria, afastando-a da natureza. Para completar a revoluo, o desenho do frasco  diferente de tudo o que existia no mercado, por causa das linhas retas, masculinas, e do rtulo simples com os dois "Cs" entrelaados. O logotipo foi inspirado no monograma da rainha Catarina de Medici, a florentina que ensinou os franceses a usar garfo e faca, muito admirada por madame. A tal ponto que ela se fez fotografar, em 1939, com roupa similar  da soberana, uma das imagens expostas no Palais de Tokyo. "O N5  um manifesto de modernidade", diz o curador Jean-Louis Froment. Pena que a modernidade seja usurpadora. Hoje, sabonetes e amaciantes tm cheiro idntico.


